quinta-feira, 31 de maio de 2012

Há dias em que precisamos de inspiração



Não sei se já comentei em algum outro post (acho que não), mas há quase dois anos sou coordenadora do grupo de voluntários do Greenpeace em Belo Horizonte. Hoje, eu e a Nanda, coordenadora adjunta do grupo, fomos dar uma palestra no Colégio Magnum, unidade Cidade Nova, para o evento do Magnum Sustentável. O público era composto por mais ou menos cem alunos de diversas faixas etárias.

A palestra tinha como tema “Energias Limpas”. Tinha, isso mesmo, pois quando o palestrante antes de nós (Leo) começou a falar sobre sua jornada e experiência de vida e sobre como podemos, juntos, mudar a realidade que nos cerca, tive a certeza de que na noite de hoje poderíamos falar sobre várias coisas, mas não somente sobre Energias Limpas. 

Então quando chegou a hora e tive que começar a palestra, a mensagem inicial que consegui transmitir foi a de: ‘sinto muito, mas a palestra que havíamos planejado não vai poder ser realizada’. Porque há momentos em que o que importa são os detalhes técnicos sobre as diversas fontes alternativas de energia que temos, mas há também momentos em que esses detalhes são o de menos, e hoje, para a minha surpresa, foi um desses dias. 

Ao invés do que havia preparado, compartilhei com os alunos um pouco da experiência que adquiri ao longo dos seis anos de voluntariado que completo e no tempo em que fiquei a bordo do Rainbow Warrior, na Amazônia. Como em vários momentos de cansaço pensei em desistir da luta, mas que, no momento da decisão, sempre prevalecia em mim uma certeza, muito maior do que eu, de que um grupo de pessoas bem dispostas e unidas por um mesmo ideal é sim capaz de mudar o meio em que se encontram. E, porque não, mudar o mundo.

No muito que falei, tentei de todas as formas, mostrar aos alunos o quanto nossas ações podem impactar positivamente a vida de outras pessoas, ainda que muitas vezes esse impacto passe despercebido por nós. 

Não sei dizer se consegui cumprir meu objetivo, mas ao final dos 50 minutos, quando alguns alunos vieram falar comigo, me perguntar sobre a experiência de voluntariado, sobre fontes de energia e me pedir para “não parar nunca”, eu tive a certeza de que, na tentativa de, de alguma forma, inspirá-los a agir, saíra eu mesma mais inspirada do que estive em todo esse último mês desde que voltei do navio. Saí, também, com a convicção infinita de que enquanto houverem pessoas como aqueles alunos, toda a luta há de valer a pena e todo sonho há de ser realizado. Sempre.

sábado, 31 de março de 2012

Life on board!

Hoje se completam 10 dias que estou a bordo do Rainbow Warrior III, o novo navio do Greenpeace, inaugurado em outubro do ano passado e que está fazendo seu primeiro tour pelo Brasil.


Junto comigo estão outros dois voluntários brasileiros, o Vinil, do Rio de Janeiro, e a Leonor, de Manaus.


O navio, um veleiro, é maravilhoso e a sensação de chegar nele com as minhas coisas no dia 22, sabendo que ficaria a bordo durante três semanas, foi indescritível.


No dia 26 veio o frio na barriga quando, às 17h, saímos do porto de Manaus em direção à próxima parada: Santarém, onde estamos agora. Estar no navio durante esses quatro dias já estava sendo fantástico, mas somente quando começamos a velejar a ficha realmente caiu: o sonho de tantos anos estava se realizando.

O interessante de se observar dentro do navio é que tudo foi realmente pensado para os balanços da viagem, como as cadeiras que se prendem à mesa com espécies de elástico, os controles remotos (sim, no lounge temos uma televisão!) que se prendem ao móvel por velcro, os pratos, que ficam dentro de uma cavidade com molas nas laterais e na parte inferior, e várias outras coisas que eu vou contando para vocês aos poucos.


Apesar de não estarmos aqui oficialmente como crew (tripulação), mas sim como guests, participamos da rotina de trabalho dos tripulantes, ajudando na limpeza e em outras tarefas que surjam. A organização é muito grande e na parede temos um cronograma com algumas tarefas diárias (como limpar os banheiros, lavar toalhas e panos de prato, arrumar as áreas comuns, etc), que as pessoas se voluntariam para realizar.


Além dessas tarefas, há outro cronograma, no qual constam as pessoas que vão fazer o watch do dia, e em que horário. O watch consiste basicamente em, quando o navio está atracado, ficar na polpa, atento para caso apareçam (acreditem) barcos piratas. Quando estamos velejando, à tarefa de cima se soma a de ficar na proa, a procura de eventuais troncos ou objetos no mar/rio/oceano que possam danificar a hélice.


Durante meus primeiros dias a bordo fiquei na cozinha, como assistente da Wendy, a cozinheira, mas essa experiência conto para vocês na próxima vez, pois daqui a pouco o jantar será servido e eu ainda tenho que descansar um pouco: hoje, o watch das 03h às 07h é meu!

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Um quase desabafo de uma quase bacharela em Direito

Quando eu decidi que iria cursar Direito, ouvi todo o tipo de comentários. Alegres congratulações por parte dos familiares, comentários indiferentes, e opiniões muito negativas. Ou melhor, péssimas.

Uma vez que, à época, meu contato com o “mundo jurídico” era pouquíssimo e minha idéia de “processo” resumia-se ao que havia assistido em filmes como “Questão de Honra” e (sim, acredite) “Legalmente loira”, eu, no auge dos meus 15 anos, não conseguia entender o porquê de algumas pessoas me dizerem que os advogados são “a pior espécie”, “desprezíveis”, “cobras prontas para dar o bote”. Em síntese, “cretinos”.

Hoje ainda ouço os mesmos comentários, a diferença é que, já com vinte anos e um anos, minha experiência no tal mundo jurídico aumentou um pouco. E, talvez por causa disso, seis anos depois, sou obrigada a concordar, em parte, com alguns deles.

Fiz estágio durante três anos na Justiça Federal de Belo Horizonte. Durante esse (relativamente) curto período, estive em alguns setores, realizei publicações, analisei processos, atendi às pessoas que iam à vara (“balcão”), integrei a assessoria do juiz. Lá minutei alguns atos processuais e participei de muitas, muitas, muitas audiências.

Minha primeira experiência realmente negativa foi no dito “balcão”. Lembro-me como se fosse hoje do dia em que uma advogada (já estressada porque eu não quis atendê-la na frente de uma velhinha de 80 anos que havia chegado antes) me pediu para buscar os autos (ou “o processo”) para ela e eu tive que lhe dizer que, infelizmente, estavam conclusos, ou seja, indisponíveis para o público.

Em questões de segundos, e antes que eu pudesse perceber, a moça, gritando que era uma adEvogada, retirou sua carteirinha da OAB da bolsa e a jogou na minha cara (há! Dá para acreditar?). Eu, atônita, não conseguia entender o porquê de aquilo estar acontecendo. Mas aí entendi: é porque ela era uma adEvogada. E eu? Quem era eu para negar alguma coisa a ela e ainda ter a ousadia de esperar um tratamento respeitoso? Ninguém, ao menos acho que é isso que ela pensava. Aquilo me frustrou e chocou tanto que, confesso, fiquei uns 30 minutos no banheiro, chorando.

Nas audiências vi de tudo: advogados mentindo descaradamente (ao ponto de a testemunha virar e dizer: “era isso mesmo que tinha que falar, doutô?”), advogados que não sabiam de que se tratava o caso, advogados desrespeitosos conosco e, acima de tudo, com seus clientes.

Um dia fui fazer o “pregão” e ao identificar os autores (um casal muito humilde), percebi que a advogada (signatária da petição inicial) estava se apresentando para eles na hora. Curiosa, perguntei a eles se eles não a haviam conhecido antes. Diante da resposta negativa, questionei como eles a haviam contratado.

Eles me contaram que a casa em que moravam ia ser leiloada, porque eles não tinham mais condição de pagar o financiamento (o marido estava desempregado e a esposa tinha que ficar em casa cuidando da filha deles, portadora da síndrome de Down). Um dia receberam a visita de uma mulher que estava com o jornal em que o leilão fora divulgado na mão. Ela lhes disse que se eles assinassem a procuração e pagassem R$50,00 por mês até sabe-se Deus lá quando, ela poderia evitar (ou pelo menos atrasar) a venda da casa. E foi o que fizeram.

O processo deles já corria por dois anos. Ao analisá-lo percebi que sempre que possível a advogada, inexplicavelmente, pedia a sua suspensão por seis meses. Curiosamente, foi o que ela tornou a fazer na audiência (mas, graças a Deus, o requerimento foi indeferido). Imagine quanto dinheiro essa mulher, chamada pela sociedade de advogada, não ganha atrasando a vida dos outros?

Aqui contei dois casos. Presenciei incontáveis. Passei muito tempo me sentindo muito mal e me perguntando o porquê de essas coisas acontecerem.

Por que os advogados, que conhecem as leis e deveriam lutar pelo seu cumprimento, são capazes de fazer essas coisas? E o juramento que fazemos? E as palavras da nossa Constituição, que nomeou os advogados como indispensáveis à administração da justiça? Será que tudo isso não significa nada?

Incomodada e desiludida com essa realidade, pensei em desistir do curso várias vezes, mas nunca consegui. Em parte porque minha decisão de cursar Direito foi tomada por um motivo muito bem definido para mim: sempre acreditei que as leis são um ótimo instrumento de mudança da realidade e que a falta de conhecimento por parte da população de seus direitos mais elementares é uma dos maiores fatores de manutenção da realidade social (insatisfatória) que conhecemos. De modo que, se eu pudesse conhecer as leis e o Direito tão bem a ponto de ser capaz de falar sobre eles de forma a despertar (ao menos) o mínimo de interesse nas pessoas, então talvez, aos poucos, conseguíssemos mudar as coisas... Para melhor.

Sei que parece, no mínimo, utópico e que inúmeras pessoas já cursaram ou pensaram em cursar Direito para mudar o mundo e o mundo continua do jeito que sempre foi, se não pior. Mas eu sei também que várias dessas pessoas, ao se deparar com várias situações difíceis e revoltantes, desistiram.

E talvez esse seja o meu problema: depois de quatro anos e três meses no curso, eu ainda não desisti. Continuo me indignando e sofrendo quando me deparo com alguma situação como as que narrei aqui, mas quando a tristeza passa sempre fica uma esperança boa (e talvez até infantil) de que o sonho daquela garota de 15 anos vai se realizar. E enquanto eu continuar acreditando nisso, sei que tudo vai ficar bem.

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

“Inconscientemente, parecia querer buscar em autores, filmes e músicas, algum tipo de consolo. Como se alguém precisasse chegar bem perto do sofá, onde estava, colocar um das mãos em seu ombro e dizer que aquilo era normal. Que acontecia também com outras pessoas. E que iria passar”. [Caio Fernando Abreu]

terça-feira, 26 de julho de 2011

Para comer bem e barato em São Paulo


Na última semana estive em São Paulo e lá conheci dois lugares bem bacanas: um para almoço/ jantar e outro para lanche.

Resolvi aproveitar para estreiar, no blog, a seção de restaurantes e comidinhas, que foi idealizada já há algum tempo! Bem, vamos lá!

O primeiro é o restaurante de comida chinesa Mussashi Yakissobateria.

Existem duas unidades em SP, a que visitei foi a do bairro Liberdade, na Rua dos Estudantes.

Eu estava passeando pelo bairro quando avistei esse restaurante. Entrei por curiosidade (há uma espécie de vitrine com os pratos, que chama bastante a atenção), já que não tinha a intenção de comer fora no dia.

O que me fez querer experimentar a comida, para ser muito sincera, foram os preços no cardápio: tendo em vista os preços que pagamos aqui em Belo Horizonte por comida chinesa (até a China in Box, que é delivery, não tem precinhos lá muito camaradas), pagar R$15,00 por um yakissoba para duas pessoas, mais três gyosas e um bolinho de camarão e um suco, me pareceu uma proposta beeem tentadora.

O lugar não é chique, mas tem um ambiente legal. O pedido é feito diretamente no caixa, juntamente com o pagamento. Cerca de quinze minutos depois, o garçom aparece, deixando o pedido na mesa.

O prato é realmente bem servido e o yakissoba, apesar de não ser o melhor que eu já comi (sei que na foto ele também não saiu lá muito apetitoso!), não decepciona, nem deixa muito a desejar, fazendo com que o lugar tenha ótimo custo benefício (ah, e, para melhorar, ainda ganhamos um suco!). Recomendo, com certeza.

O segundo lugar é a Pastelaria Hiroshi! Essa pastelaria foi o maior achado, porque: 1) eu amo pastéis... AMO!; 2) fica na Rua Siqueira Bueno, 1746 (tel: 2601-4715), no Mooca, bem perto de onde eu estava.

O lugar é simples, mas é limpo (o que é muito mais importante do que a "fineza" do lugar, né?) e os pastéis, que são feitos na hora e você pode acompanhar todo o processo - pois a "parede" é de vidro), são DELICIOSOS. Cada pastel custa em média R$3,00, mas são maiores que a média (mais ou menos 8x15cm) e muito, muito bem recheados.

Os sabores experimentados foram: frango com catupiry, bauru e calabresa com catupiry. Todos excelentes, por sinal!

Queria muito ter tirado uma foto do local, mas como fui lá bem despretensiosamente, deixei a câmera em casa.
Para acompanhar os deliciosos pastéis, o local também serve sucos de polpa, que podem ser feitos com água ou leite. Os de graviola, tangerina e amora eram muito bons!

Ah, além de na Rua Siqueira, há outra loja na Rua Salete, 353, SP - Tel: 2976-7120.

Enfim, nota 10 para os dois lugares no quesito custo x benefício. Para quem quer comer bem e barato em São Paulo, ficam as dicas!

domingo, 29 de maio de 2011

Lição do dia

Existe sempre uma coisa ausente - Caio Fernando Abreu

Paris — Toda vez que chego a Paris tenho um ritual particular. Depois de dormir algumas horas, dou uma espanada no rodenirterceiromundista e vou até Notre-Dame. Acendo vela, rezo, fico olhando a catedral imensa no coração do Ocidente. Sempre penso em Joana d’Arc, heroína dos meus remotos 12 anos; no caminho de Santiago de Compostela, do qual Notre-Dame é o ponto de partida — e em minha mãe, professora de História que, entre tantas coisas mais, me ensinou essa paixão pelo mundo e pelo tempo.

Sempre acontecem coisas quando vou a Notre-Dame. Certa vez, encontrei um conhecido de Porto Alegre que não via pelo menos há 20 anos. Outra, chegando de uma temporada penosa numa Londres congelada e aterrorizada por bombas do IRA, na época da Guerra do Golfo, tropecei numa greve de fome de curdos no jardim em frente. Na mais bonita dessas vezes, eu estava tristíssimo. Há meses não havia sol, ninguém mandava notícias de lugar algum, o dinheiro estava no fim, pessoas que eu considerava amigas tinham sido cruéis e desonestas. Pior que tudo, rondava um sentimento de desorientação. Aquela liberdade e falta de laços tão totais que tornam-se horríveis, e você pode então ir tanto para Botucatu quanto para Java, Budapeste ou Maputo — nada interessa. Viajante sofre muito: é o preço que se paga por querer ver “como um danado”,feito Pessoa. Eu sentia profunda falta de alguma coisa que não sabia o que era. Sabia só que doía, doía. Sem remédio.

Enrolado num capotão da Segunda Guerra, naquela tarde em Notre-Dame rezei, acendi vela, pensei coisas do passado, da fantasia e memória, depois saí a caminhar. Parei numa vitrina cheia de obras do conde Saint-Germain, me perdi pelos bulevares da le dela Cité. Então sentei num banco do Quai de Bourbon, de costas para o Sena, acendi um cigarro e olhei para a casa em frente, no outro lado da rua. Na fachada estragada pelo tempo lia-se numa placa: “II y a toujours quelque choe d’abient qui me tourmente” (Existe sempre alguma coisa ausente que me atormenta) — frase de uma carta escrita por Camilie Claudel a Rodín, em 1886. Daquela casa, dizia aplaca, Camille saíra direto para o hospício, onde permaneceu até a morte. Perdida de amor, de talento e de loucura.

Fazia frio, garoava fino sobre o Sena, daquelas garoas tão finas que mal chegam a molhar um cigarro. Copiei a frase numa agenda. E seja lá o que possa significar “ficar bem” dentro desse desconforto inseparável da condição, naquele momento justo e breve — fiquei bem. Tomei um Calvados, entrei numa galeria para ver os desenhos de Egon Schiele enquanto a frase de Camille assentava aos poucos na cabeça. Que algo sempre nos falta — o que chamamos de Deus, o que chamamos de amor, saúde, dinheiro, esperança ou paz. Sentir sede, faz parte. E atormenta.

Como a vida é tecelã imprevisível, e ponto dado aqui vezenquando só vai ser arrematado lá na frente. Três anos depois fui parar em Saint-Nazaire, cidadezinha no estuário do rio Loire, fronteira sul da Bretanha. Lá, escrevi uma novela chamada Bem longe de Marienbad , homenagem mais à canção de Barbara que ao filme de Resnais. Uma tarde saí a caminhar procurando na mente uma epígrafe para o texto. Por “acaso”, fui dar na frente de um centro cultural chamado (oh!) Camille Claudel. Lembrei da agenda antiga, fui remexer papéis. E lá estava aquela frase que eu nem lembrava mais e era, sim, a epígrafe e síntese (quem sabe epitáfio, um dia) não só daquele texto, mas de todos os outros que escrevi até hoje. E do que não escrevi, mas vivi e vivo e viverei.

Pego o metrô, vou conferir. Continua lá, a placa na fachada da casa número 1 do Quai de Bourbon, no mesmo lugar. Quando um dia você vier a Paris, procure. E se não vier, para seu próprio bem guarde este recado: alguma coisa sempre faz falta. Guarde sem dor, embora doa, e em segredo.

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Dilma: e o kit escola sem homofobia?

"E se tudo isso que você acha nojento for exatamente o que chamam de amor?" [Caio Fernando Abreu]


Queria, ainda que por um dia, ver uma decisão tomada de forma livre e soberana em suas razões, que não fosse fruto de uma bagatela política e que se preocupasse com o bem da sociedade, com a valorização das diferenças e da dignidade da pessoa humana e não com um falso moralismo hipócrita.

Estou tão cansada e quase sem esperança... É triste ver que na política do nosso País, assim como em quase todo o resto, diga-se de passagem, falta seriedade, honestidade, comprometimento e independência.

Fiquemos, então, com as palavras de Martin Luther King, inúmeras vezes mais inspiradoras do que as que têm sido proferidas pelos ocupantes dos mais altos cargos do País:

‎"Devemos aceitar a decepção finita, mas nunca perder a esperança infinita." (Martin Luther King)



domingo, 15 de maio de 2011

Once

Eu amo filmes. Na verdade, quem acompanha o blog já deve ter percebido que amo filmes quase tanto quanto livros.

Numa busca constante por (bons) filmes para assistir, percebi que os típicos longas hollywoodianos já não me satisfazem mais. Não que não sejam divertidos ou interessantes, são sim, mas hoje me chamam mais a atenção os filmes com menos efeitos especiais, menos explosões, menos clichês e até mesmo, menos “felizes para sempre”.

Hoje vejo que um filme, um bom filme, tem que ter algo a mais do que... Bem, todos os outros. E esse algo a mais, acreditem ou não, costuma ser a simplicidade.

Então é isso, nessa busca por “outros” filmes, fiz ótimas descobertas, como “Eterno Amor”, “O mesmo amor, a mesma chuva”, “O filho da noiva”, e, finalmente Once, ou Apenas uma vez.

Once conta a história de um jovem (Glen Hansard – vocalista da banda The Frames) que, para ganhar uns trocados, tocava e cantava nas ruas de Dublin em suas horas vagas. Em uma noite, uma garota tcheca (Marketá Irglová) pára para ouvir suas músicas e, num diálogo um pouco inusitado, eles combinam um encontro no dia seguinte para que ele conserte o aspirador de pó dela (“principal” ocupação dele).

Com o encontro, descobrem que a paixão pela música existe em ambos e é essa paixão que os aproxima cada vez mais, a ponto de chegarem a fazer parte do cotidiano um do outro.

Se é um musical? Não sei, porque foge completamente ao estilo “faça tudo cantando”. Melhor seria dizer que o foco do filme é a música, que permeia o relacionamento deles de todas as formas e em praticamente todos os momentos.

O romance entre os protagonistas inominados (aliás, muito interessante essa técnica, não dar um nome a um personagem, para que ele possa ser qualquer um) é inserido de forma muito sutil, o que deixa tudo ainda mais real.

Mas esse romance nunca se realiza, ou melhor, se concretiza: ela tem uma filha, é casada e mora com a mãe; ele tinha um relacionamento mal resolvido com uma garota na Inglaterra. É um querer consciente de suas limitações, mas ainda assim tão bonito, tão doce, que chega a deixar uma pontinha de tristeza na gente, mas é uma tristeza que não pesa.

Além do ótimo e simples roteiro, o filme deixa de presente uma trilha sonora maravilhosa, que não consigo parar de ouvir.

Então é isso: se você quer um filme que vale a pena ser visto em qualquer momento, o meu voto com certeza vai para este.

domingo, 8 de maio de 2011

"Há escolas que são gaiolas e há escolas que são asas...

Escolas que são gaiolas existem para que os pássaros desaprendam a arte do vôo. Pássaros engaiolados são pássaros sob controle. Engaiolados, o seu dono pode levá-los para onde quiser. Pássaros engaiolados sempre têm um dono. Deixaram de ser pássaros. Porque a essência dos pássaros é o vôo.

Escolas que são asas não amam pássaros engaiolados. O que elas amam são pássaros em vôo. Existem para dar aos pássaros coragem para voar. Ensinar o vôo, isso elas não podem fazer, porque o vôo já nasce dentro dos pássaros. O vôo não pode ser ensinado. Só pode ser encorajado.” [Rubem Alves]

Há alguns anos cheguei à triste conclusão de que, infelizmente, uma parcela significativa dos professores dá aula com o mero objetivo de poder passar horas a fio falando sobre seus feitos grandiosos ou tendo o prazer de se auto-afirmar, maltratando e humilhando os alunos.

Essa conclusão veio depois de quatro anos sendo aluna de alguns desses “professores”.

Durante esse tempo, percebi, ainda, que mesmo a parcela de professores que não se encaixava no perfil acima, tinha algo em comum com eles: nem uns, nem outros queriam realmente ouvir os alunos. Aliás, não só não queriam ouvir o aluno, como também não queriam que pensássemos por nós mesmos. Quantas vezes não vi um professor zerar a questão de um aluno só porque havia exposto uma linha de pensamento diferente, ainda que muito bem fundamentada?

Na verdade, bastava que soubéssemos repetir, ainda que sem entender, o que nos havia sido dito, da maneira exata como nos fora dito. Da maneira deles, não da nossa maneira. Isso mesmo, sem pensar, sem refletir, sem compreender verdadeiramente.

Em todos esses anos, não me lembro de quase nenhum professor que se preocupasse em saber o que pensávamos, seja sobre as aulas, conteúdo, vida acadêmica, profissão, nada.

Não digo que não aprendemos nada com esses professores, justiça seja feita, aprendemos sim. Mas me chateia pensar que poderíamos ter aprendido muito mais, talvez não sobre a matéria, mas sobre a vida, sobre como tratar as pessoas. E eles também poderiam ter aprendido muito conosco também, não por sermos alunos, mas por sermos pessoas. Todos têm algo para oferecer e me parece que todos temos perdido as lições mais valiosas.

Mas então, como sempre acontece na vida, ocorreu o inesperado.

É isso mesmo! Na última quinta-feira aconteceu uma coisa inédita em meus quatro anos de faculdade: durante todo um horário, um professor se colocou à disposição para ouvir o que os alunos tinham a dizer.

Para o espanto (ou talvez não) do professor, a turma ficou praticamente em silêncio. Inclusive eu, que nunca pensei que isso fosse acontecer, que a oportunidade fosse nos ser dada.

Eu, que reclamava tanto, quando tive a oportunidade de falar, fiquei calada. Mas meu silêncio não foi, talvez, como o de meus colegas. Fiquei calada por, de certa forma, ter sido ouvida antes. E era, estranhamente, um silêncio feliz, porque eu sabia que se falasse, seria ouvida.

Então é isso, talvez este post não tenha tido um objetivo claro. Mas talvez seja um desejo traduzido em palavras, de que nossas universidades e escolas, aos poucos, aprendam a abrir a porta das gaiolas e transformem-se em asas.

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

A aparência do amor


"Pode-se prometer atos, mas não sentimentos; pois estes são involuntários.

Quem promete a alguém amá-lo sempre, ou sempre odiá-lo ou ser-lhe sempre fiel, promete algo que não está em seu poder; mas ele pode prometer atos que normalmente são consequência do amor, do ódio, da fidelidade, mas também podem nascer de outros motivos: pois caminhos e motivos diversos conduzem a um ato.

A promessa de sempre amar alguém significa, portanto: enquanto eu te amar, demonstrarei com atos o meu amor; se eu não mais te amar, continuarei praticando esses mesmos atos, ainda que por outros motivos: de modo que na cabeça de nossos semelhantes permanece a ilusão de que o amor é imutável e sempre o mesmo.

Portanto, prometemos a continuidade da aparência do amor quando, se cegar a nós mesmos, juramos a alguém amor eterno."
[Friedrich Nietzsche]

Ah, quantos corações seriam poupados se tivéssemos consciência disso... Se assim for, que a promessa seja consciente, que os atos sejam verdadeiros e as palavras, suaves.

domingo, 19 de setembro de 2010

Você conhece o Skoob?

Descobri o Skoob (books ao contrário) há alguns meses, com a promessa de ser uma rede social voltada totalmente para amantes da leitura. Fiquei surpresa com o fato de existir uma rede voltada para leitores (como assim eu não conhecia? rs), e mais surpresa ainda (confesso) ao saber que foi desenvolvido por brasileiros, muito legal!

Eu, é claro, corri para fazer meu cadastro no site.

É, realmente, uma rede social: é possível “fazer amigos”, deixar comentários na página de outra pessoa, participar de comunidades, etc.

Mas os criadores do site brilharam mesmo por possibilitar aos usuários terem sua “estante virtual”, ou seja, você pode cadastrar livros que leu/quer ler e muito mais do que isso: é possível classificá-los de inúmeras maneiras. Isso mesmo: lidos, não lidos, abandonados, desejados, estou lendo, meta de leitura, emprestado, tenho ou não, além das formas convencionais (como o gênero, autor, nota).

Além disso, é possível fazer críticas sobre as obras, bem como registrar sua evolução de leitura no seu perfil. Se você quiser trocar algum livro, consegue descobrir quem deseja aquele livro e quem também tem interesse em troca.

Eu, que há séculos buscava um catalogador de livros, achei essa ferramenta fantástica, sobretudo por ser virtual. Digo isso porque comecei a catalogar todos os meus livros no Libra, um programa bem legal (só que com muito menos possibilidades de classificação/detalhamento que o skoob), mas na troca de PC perdi todo o meu longo trabalho.

Para mim o skoob é perfeito enquanto “estante virtual”, mas deixa a desejar quanto ao seu objetivo de ser uma rede social de leitores. Isso porque não é nada fácil (aliás, é bem difícil) localizar conhecidos no site. Senti falta de um sistema de busca mais abrangente, ou ainda que fizesse uma “conexão” com seus contatos do e-mail, algo assim.

Bem, fica a dica para aqueles que, como eu, amam ler e sempre quiseram um lugar para cadastrar os livros e trocar impressões.

terça-feira, 14 de setembro de 2010

"Tenho trabalhado tanto, mas penso sempre em você...


Mais de tardezinha que de manhã, mais naqueles dias que parecem poeira assentada aos poucos e com mais força enquanto a noite avança. Não são pensamentos escuros, embora noturnos. Tão transparentes que até parecem de vidro, vidro tão fino que, quando penso mais forte, parece que vai ficar assim clack! e quebrar em cacos, o pensamento que penso de você. Se não dormisse cedo nem estivesse quase sempre cansado, acho que esses pensamentos quase doeriam e fariam clack! de madrugada e eu me veria catando cacos de vidro entre os lençóis. Brilham, na palma da minha mão. Num deles, tem uma borboleta de asa rasgada. Noutro, um barco confundido com a linha do horizonte, onde também tem uma ilha. Não, não: acho que a ilha mora num caquinho só dela. Noutro, um punhal de jade. Coisas assim, algumas ferem, mesmo essas que são bonitas. Parecem filme, livro, quadro. Não doem porque não ameaçam. Nada que eu penso de você ameaça. Durmo cedo, nunca quebra."
(Caio Fernando Abreu)

terça-feira, 7 de setembro de 2010

El mismo amor, la misma lluvia

Depois dos últimos posts sobre filme terem privilegiado o cinema francês, resolvi dar uma volta no cinema argentino, que muito tem me surpreendido também.

Pensando nisso, estava decidida a escrever sobre o filme “O segredo de seus olhos”, dirigido por Juan José Campanella e ganhador do Oscar de melhor filme estrangeiro de 2010.

Pesquisando mais sobre o diretor, li sobre outra obra dele, “El mismo amor, La misma lluvia” (de 1999), ou “O mesmo amor, a mesma chuva”, curiosamente protagonizado pelos mesmos atores (Ricardo Darín e Soledad Villamil) que “O segredo de seus olhos”.

Assim como um livro me ganha (à primeira vista) pela capa, um filme me ganha pelo título (ou pelas falas), e esse com certeza foi um dos casos.

Assisti a este filme hoje e, como eu esperava, não me decepcionei. Sabe-se lá o porquê, ele não foi parar nas nossas salas de cinema, foi direto para as locadoras.

Jorge (Ricardo Darín) escreve crônicas românticas para uma revista argentina. O trabalho é medíocre e não lhe permite mostrar ao público seu talento. Assim segue sua vida, em meio à conturbada década de 80 na Argentina.

Em um dia de chuva ele avista uma moça que se encanta com as gotas de chuva caindo sobre seu rosto. A moça é Laura (Soledad Villamil), garçonete, atriz e estudante de artes plásticas. Não só isso, é também a moça com quem ele se reencontra num desses muitos acasos do destino e que será, se assim posso dizer, a mulher que ele ama.

O romance dos dois resiste à Guerra das Malvinas, ao fim da ditadura e ao início do novo governo, mas não resiste a eles mesmos, ao tempo, ao desgaste da convivência. O rompimento, aqui, não significa o fim do filme, nem o ápice do enredo. Jorge e Laura não morrem de amor, nem abandonam a vontade de viver. Eles simplesmente vivem com suas dores, seus fracassos e desilusões, como a grande maioria de nós faz todos os dias.

Ao longo de quase duas décadas acompanhamos a vida desses personagens, sobretudo a de Jorge, e somos apresentados aos caminhos que escolheram seguir desde que se separaram.

Apesar de tudo, fica um ar de esperança, de amizade, de amor e a convicção de que um novo começo sempre é possível, ainda que demore, ainda que seja difícil.

O filme é precioso porque nos dá a sensação de que Laura e Jorge poderiam facilmente ser quaisquer pessoas, poderiam ser eu ou você. Como assim? A história é o cotidiano, é uma rotina. Não é como os filmes, comédias ou romances, que dão bilheteria: nos agradam e fazem rir, mas deixam aquela conhecida sensação de que na vida os amores são menos belos e menos fantasiosos que no cinema. Nesta obra o amor e a vida são o que são, sem grandes truques, sem grandes vilões, só nós mesmos.

Campanella nos mostra, da melhor forma o possível, que a arte muitas vezes imita a vida, e não há nenhum problema nisso.

domingo, 29 de agosto de 2010

Can you keep a secret?

Can you keep a Secret, ou O Segredo de Emma Corrigan, é um (ótimo) livro de Sophie Kinsella.

O livro é mais um dos muitos do gênero chick lit (opa, não pare de ler por preconceito, hein?). Como assim? Chick lit é aquele gênero de livro vulgarmente chamado de “livro de mulherzinha”. Romances leves com aquela dose certa de comédia, com finais completamente previsíveis e de fácil leitura (o que não significa que dispense qualquer tipo de reflexão, mas sim que não é aquele livro que te suga por completo, que te faz ter uma avalanche de emoções e reflexões).

Adquiri este livro em janeiro deste ano, na Livraria Cultura (da Paulista), após receber a indicação de uma garota que já lera vários livros da autora. Comprei sem relutar a versão pocket em inglês (que é muuuito mais barata que os R$50,00 cobrados pela em português. Aliás, não consigo entender porque aqui no Brasil livro é artigo de luxo).

Apesar de tê-lo comprado em janeiro, só comecei a lê-lo na última quarta (sim, dia 25/08). Mas o fato é: em determinado ponto da história eu não consegui mais largar o livro (o que, confesso, foi ligeiramente ridículo já que eu lia o livro até na aula e tinha que ficar segurando minha vontade de rir a cada nova passagem). O resultado foi que na sexta de manhã eu já acabara de lê-lo.

Mas vamos lá.

Emma Corrigan não é exatamente o que se pode chamar de uma pessoa bem-sucedida, e seus familiares adoram lembrá-la disso. Mas ela tem um namorado maravilhoso, um emprego na Panther Corp., divide um apartamento com duas amigas (Lissy e Jemima) e, como toda mulher, tem lá seus segredinhos.

Mas ela sabe que sua sorte está para mudar quando seu chefe a pede para representá-lo em uma reunião em Glasgow. Ela será promovida, Emma tem certeza.

Bem, ela seria promovida, se a reunião não tivesse sido um total fracasso.

Para piorar, ao voltar para casa, o avião em que está passa por grande turbulência e a jovem, que já tem medo de voar, tem certeza de que todos vão morrer. Desesperada e fora de si, Emma começa a falar descontroladamente com o desconhecido sentado ao seu lado e, um a um, conta todos os seu segredos a ele (quase como uma confissão, eu diria). Ela só pára ao ser interrompida pela aeromoça, informando-lhes que o avião já aterrizou.

Ao perceber o que acontecera, só uma coisa a deixa aliviada: a certeza de que ela nunca verá aquele homem que sabe tantas coisas (constrangedoras) sobre sua vida.

Na segunda-feira, ao chegar ao trabalho, Emma descobre que a empresa receberá a visita de um dos inventores da marca, Jack Harper. Quando o tão esperado visitante chega, quão grande é sua surpresa (e desespero) ao perceber que ele, o dono da companhia, é nada mais, nada menos, que o “desconhecido” do avião.

Tudo bem, à primeira vista pode não parecer o enredo mais interessante do momento, mas a maneira como a história se desenvolve, o jeito como o não mais desconhecido usa os segredos de Emma para provocá-la e até mesmo melhorar as coisas é realmente cativante.

Seja como for, bobinho ou não, o livro merece ser lido, até mesmo por mostrar, de maneira sutil e divertida, até que ponto conseguimos guardar inúmeros pequenos segredos e sustentar várias pequenas mentiras sem que isso nos torne, perante os outros, uma pessoa completamente diferente da que realmente somos.

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Um Domingo para Sempre


“Era uma vez cinco soldados franceses que faziam a guerra porque as coisas são assim.

O primeiro, outrora aventureiro e alegre, levava no pescoço a matrícula 2.124 de uma Junta de Recrutamento do Departamento de Seine. Nos pés tinha botas, tiradas de um alemão, e essas botas afundavam na lama, de trincheira em trincheira, pelo labirinto esquecido por Deus que levava às primeiras linhas.”

Uma coisa sempre foi certa para mim: por trás de todo bom filme há um bom livro. Então, depois de assistir a “Eterno Amor” fui logo procurar saber se o roteiro fora baseado em alguma obra literária, e não deu outra: o filme é uma (ótima) adaptação do livro “Um Domingo para Sempre”, do francês Sébastien Japrisot (editora Relume Dumará, conta com 263 páginas).

Pois bem. Com essa informação, eu, é claro, tinha que ler esse livro. E li! De início, devo dizer que duas coisas me surpreenderam:

A primeira foi a narrativa. Ela é diferente de um romance comum, mas é também diferente da narrativa que nos é apresentada no filme. Não é nada surreal, é só diferente (e, apesar de ter me surpreendido, devo dizer que eu teria me decepcionado se não tivesse encontrado essa diferença, porque a história é diferente, o usual não cabe aqui).

A segunda surpresa foi ver que o livro é tão confuso quanto o filme (o que não significa que a leitura seja difícil ou cansativa): também há uma quantidade enorme de personagens (sejam eles secundários ou não) e uma quantidade enorme de pequenos grandes detalhes. Nada que torne a história incompreensível, mas mais de uma vez me veio o pensamento: “peraí, quem é esse mesmo?” Então eu voltava várias páginas até encontrar a primeira referência que o autor fizera àquele personagem.

Pois bem, agora vamos à história.

O livro, como vocês podem perceber pelo trecho acima, começa com os mesmos cinco soldados franceses, que receberam a morte como punição por terem se automutilado. Mas não é a morte que eles recebem, ao menos não diretamente. Eles são jogados no espaço vazio que separa a trincheira francesa da alemã. Durante toda a noite do sábado, dia 07 de janeiro de 1917, e manhã de domingo, eles lutam por sua sobrevivência.

Dentre os cinco está Bleuet, como é conhecido no front de guerra, apesar de seu verdadeiro nome ser Jean e de sua querida Mathilde lhe chamar de Manech. Mathilde é a garota que caiu da escada ainda criança e nunca mais voltou a andar, mas, muito mais do que isso, é a garota que Manech ensinou a nadar, é a garota que lhe deu o primeiro beijo, é a sua garota, sua noiva.

Depois daquele dia terrível em que os cinco condenados marcharam rumo às primeiras linhas da trincheira de Bingo Crepúsculo, ela não teve mais notícias dele. Até que um ex-oficial, Esperança, procura a garota e lhe conta tudo o que sabe. Ele está morto. Mathilde não é mais noiva, é uma viúva branca.

Mas ela sempre fora daquelas poucas pessoas que se deixam levar por uma insensata esperança e um otimismo sem limites. Ela não acredita no que ouve, no que lhe contam. Começa uma investigação por contra própria para descobrir tudo relacionado a Bingo Crepúsculo. Manech pode estar morto ou vivo, mas ela precisa saber.

A narrativa acompanha Mathilde nessa busca, que dura cerca de sete anos. Ora somos informados sobre detalhes do passado dos dois enamorados, ora mergulhamos na vida de outros personagens, porque cada um dos cinco condenados guardava sua história, seus segredos, suas loucuras.

“Nessa luta desesperada da busca por uma ausência presente, desponta uma ácida crítica à burocracia e ao cinismo das autoridades militares: a burocracia é surda, a covardia é muda - e na guerra tem que ser assim.” (orelha do livro, caiu tão bem que tive que colocar aqui)

Ao final de tudo, Mathilde terá sua resposta.

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Sempre Clarice




"Faz de conta que ela não estava chorando por dentro - pois agora, mansamente, embora de olhos secos, o coração estava molhado; ela saíra agora da voracidade de viver."
(Clarice Lispector)

terça-feira, 27 de julho de 2010

Enquanto você dormia

Acabei de assistir a essa comédia romântica (não pela primeira vez) e me deu uma vontade enorme de escrever sobre ela.

A história é, basicamente, a seguinte: Lucy (Sandra Bullock) trabalha em uma estação de trem vendendo bilhetes. Em um de seus expedientes, ela vê um belo homem (Peter Gallagher) e (tipicamente) se apaixona à primeira vista por ele.

Poucos meses depois, esse mesmo desconhecido sofre um acidente na (então deserta) estação e cai nos trilhos do trem. Lucy o salva e, já no hospital, uma enfermeira acredita ser ela noiva dele. A família dele chega ao local e recebe, nada mais, nada menos, a notícia de que fora salvo por sua noiva. Surpresas para lá, exclamações para cá, a garota não consegue contar a eles que tudo não passou de um mal entendido.

A família, acreditando ser Lucy a futura esposa de Peter, acolhe-a imensamente bem, e a garota solitária, que perdeu os pais há tempos e não convive com os demais parentes, passa a querer, cada vez mais, fazer parte de tudo aquilo: ela já não quer contar a verdade.

A história se desenrola (com Peter em coma) e em um belo dia Lucy conhece Jack (Bill Pullman), irmão de seu “noivo”, e como já era de se esperar, ela se apaixona por ele.

O que já era complicado fica ainda mais desesperador para a garota quando Peter acorda e (é claro) não faz a mínima idéia de quem ela seja.

O fim? É claro que eu não vou contar.

Ok. Tudo bem. Talvez o filme não tenha o roteiro mais brilhante e imprevisível de todos os tempos, mas, com todos os seus lugares comuns (inerentes ao gênero), ele conseguiu ser encantador.

Seja pela garota solitária que tem como parente mais próximo seu gato, seja pelo comportamento da família de Peter, ou pelos inúmeros imprevistos e acasos que acabam por corroborar com toda a farsa, o filme é cativante (ou, como me disseram: “é água com açúcar, mas é gostoso de ver”) e realmente nos envolve sem precisar usar de todos aqueles artifícios e master exageros das comédias românticas atuais (aliás, While you were sleeping – título original – é de 1995).

Outro ponto positivo: essa é uma das poucas comédias românticas em que eu realmente ri.

Então é isso aí: se você está em casa querendo ver um bom filme do gênero, meu voto é para este.

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Carta [perdida] de uma garota a ela mesma



O tempo tem me ensinado muitas coisas. Ele me ensinou que caminhar sozinha pode ser necessário às vezes e que uma vez que nos acostumamos a isso, de uma forma ou de outra, estaremos sempre sós.

Às vezes essa solidão nos é imposta por nós mesmos ao renunciarmos à companhia de alguém que estava disposto a seguir a nossa jornada conosco, sem saber que cada um tem uma jornada e que estar junto não é trilhar a jornada do outro.

Ele me ensinou também que muitas vezes não sabemos amar. Porque nos dizem que para amar precisamos nos entregar por completo a outra pessoa, mas eu não sei se consigo me entregar completamente a alguém, a não ser a mim mesma e a todas as indagações com as quais tenho, dolorosamente, traçado meu caminho.

Mais do que isso, aprendi, nesses últimos meses, que não importa quão confortável seja a prisão em que nos colocam, ou na qual, tantas vezes, colocamo-nos pelos mais diversos motivos. Essa prisão pode ser uma idéia, um lugar, um costume, uma pessoa ou um sentimento, pode ser, e geralmente é, cômoda, mas será sempre uma prisão. Não importa nada que possam me oferecer se as portas estão sempre trancadas. As portas estão sempre trancadas e meu coração precisa desesperadamente voar...

** [Alguns anos e algumas Bárbaras atrás]

Obs.: A imagem [perfeita] foi retirada do link: http://carmelly.deviantart.com/art/wonderland-come-to-us-171328836?q=boost:popular+in:photography/people/portraits+max_age:8h&qo=56

terça-feira, 29 de junho de 2010

Amor ou consequência


Muito mais do que o título em português ou até mesmo que o título original (Jeux d'enfants), o título inglês caiu como uma luva: Love me if you dare.

Sophie (Marion Cotillard, quando adulta) é uma menina de oito anos, solitária e rejeitada na escola por ser polaca. Julien (Guillaume Canet, quando adulto) também é um garoto solitário, não por sua origem, mas por sua timidez.

A vida dos dois muda quando Julien, querendo alegrar Sophie, oferece a ela sua caixinha de música, mas pergunta à garota se ela poderia emprestar-lhe a caixinha eventualmente. Ela, então, desafia-o: "Cape ou pas cape?". Ousas ou não? Começa, assim, o jogo: quem detém a pequena caixa lança ao outro um desafio, que cumprindo-o, terá a caixa para si e lançará, por sua vez, um desafio em retorno.

O jogo, de início, era uma maneira de esquecerem os problemas em casa, a vida não tão feliz que levavam. Mas o tempo passa e o jogo continua, com desafios cada vez maiores e mais maldosos: tornara-se uma maneira (não muito boa) de lidar com o que sentiam um pelo outro.

Não foram necessários nem quinze minutos de filme para que eu concluísse: “esse filme me lembra Amélie Poulain”: o mesmo estilo de coloração (meio apagadas, se entendem o que quero dizer), o narrador que nos conta a história enquanto inúmeras imagens invadem nossa vista...

Mas Amélie é a história de um amor, um amor suave, delicado, que cresce nos protagonistas na mesma medida em que eles aprendem a lidar com ele. Aqui não. Amor ou consequência é um amor louco, uma paixão desenfreada, que faz com que os protagonistas, não sabendo como lidar com ela, desafiem-se, afastem-se um do outro, provoquem-se e magoem a si próprios e aqueles que os cercam.

Apesar de não ter gostado muito do final (confesso que eu esperava e queria algo mais óbvio), e quase de ter morrido de raiva em vááárias cenas, recomendo o filme, com destaque para a atuação de Marion Cotillard, sempre cativante.